Ainda dá tempo

November 9, 2008

 

Max G Pinto  
Qualquer dúvida vale a pena: a estudan-te Júlia Sardenberg, 13 anos, aprendeu nas aulas de reforço de matemática da Escola Cooperativa (SP) que precisava falar mais para tirar suas dúvidas. Júlia ficava sem graça de fazer perguntas porque os outros alunos que discutiam a matéria pareciam ter questões mais pertinentes. “No reforço, vi que minhas dúvidas também valem”, diz.  
O que devemos fazer quando o filho vai mal na escola
Como agir na hora da lição de casa
A repetência do ensino público
 
 
Escolas, pais e estudantes recorrem
a aulas de reforço, psicólogos e outras
estratégias para que a criança não
perca o ano.
Eliane Lobato e Mônica Tarantino
Colaborou: Eduardo Hollanda

Outubro é um mês com significado diferente para pais e filhos. Representa, para alguns, a última etapa a ser vencida para avançar uma série na escola. Mas, para outros, tem peso maior. É um período de esforço e de tensão para recuperar a defasagem em uma ou mais matérias e atingir a pontuação exigida para virar a página do calendário escolar. Nessa época, a procura por aulas particulares triplica. Na escola Vésper, um centro de aulas particulares de São Paulo, o número de alunos subiu de 67 em março para 155 no final de setembro. Não é por menos. Segundo os cálculos das próprias escolas, cerca de 10% dos alunos de colégios particulares, ao longo do ano, fazem reforço, recuperação, lições especiais e aulas particulares.

Nessa hora, a pergunta que pais e educadores se fazem é como ajudar as crianças a superar os problemas. Eis aí uma questão que só poderá ser respondida com um conhecimento detalhado do que se passa com o estudante. “Pode haver mais de uma razão para a nota baixa”, diz a neuropsicóloga infantil Ana Olmos, de São Paulo. Por trás da nota insuficiente, diz Ana, pode estar uma dificuldade com o conteúdo da matéria ou problemas que vão desde a falta de organização para estudar em casa, momentos de desatenção na sala de aula, desinteresse pela matéria, conflitos emocionais até males físicos, como a necessidade de óculos adequados ou dificuldades auditivas.

Dárcio de Jesus
Cestinha da escola: no primeiro trimestre, Valdimir Diniz, 11 anos, aluno da 4ª série do Colégio Marista, em Brasília, teve conceitos insuficientes em portu-guês, matemática e geografia. Desatenção e falta de concentração. “Não prestava atenção”, conta. A saída indicada pela escola foram aulas particulares. Valdimir, que joga basquete, admite que, além das aulas, a “pressão” caseira ajudou. “Minha mãe me proibiu de jogar até meu rendi-mento melhorar. Fiquei mais responsável e minha avaliação subiu”.

Para descobrir a razão, muitos pais perguntam diretamente aos filhos o que está acontecendo. Às vezes, tiram da conversa respostas como “detesto matemática” ou “a aula de geografia é muito chata”. Diante dessas afirmações, o melhor caminho é dialogar com a escola. Muitas, aliás, chamam os pais antes mesmo de o rendimento escolar despencar. O Colégio Santa Cruz (SP), por exemplo, trabalha assim. “A parceria entre pais e escola é importante para
entender o que se passa com os estudantes em
vários aspectos”, diz Sônia Barretto, coordenadora do ensino fundamental da escola.

Quando a dificuldade é fruto de uma fase de distração passageira e, como resultado, o aluno não acompanhou parte do conteúdo ensinado na aula, na maioria das vezes a revisão da matéria é suficiente para retomar o passo. E isso pode ser feito com as aulas de reforço oferecidas nos colégios. Na maioria das escolas particulares, elas são dadas o ano todo. No Marista, de Brasília, o aluno que consegue tirar o atraso antes do fim da recuperação ganha alguns dias de descanso. “Não é preciso esperar o fim da recuperação para aprovar o aluno”, explica Júlio Egreja, assessor psicopedagógico da escola. Já o Objetivo criou uma ampla rede de apoio. “Temos plantão de dúvidas por telefone e de professores, aulas de reforço, recuperação e a chance de levar três dependências para resolver na série seguinte”, diz Vera Antunes, coordenadora da escola.

Entre os educadores, existe uma discussão sobre
o que é de fato necessário acontecer nas aulas de
apoio para que elas funcionem. “Elas precisam ir além da repetição da matéria. Se o aluno não entendeu uma explicação, repeti-la
pouco adiantará. É necessário mudar a forma para que ele veja o assunto de
outro jeito”, diz a educadora Clice Haddad, coordenadora do ensino fundamental
da Escola da Vila (SP).

Renato Velasco  
De olho no vestibular:
a advogada Cristina Moura, do Rio, fez duas faculdades sem precisar de aula particular, mas a filha Débora, 13 anos, tem aulas  de matemática, portu-guês e desenho geométrico. A garota cursa a 7ª série do Colégio Santo Agos-tinho, considerado um dos melhores da cidade
.
 

A experiência da professora Sueli Fanizzi, do Santa Cruz, confirma essa teoria. “No reforço, o conteúdo precisa ser visto de forma diferente”, diz. Nas salas de reforço de matemática para alunos da 2ª série que ministra na escola, ela inova. “Analiso os erros dos alunos para descobrir com eles quais raciocínios levaram àquele resultado. As crianças ficam motivadas e constroem o conhecimento”, descreve. Outro aspecto que ganha importância é a necessidade de reforçar a confiança do aluno, muitas vezes abalada pela avaliação abaixo da média. “Quando a auto-estima melhora, ele acredita mais na própria capacidade de aprender”, diz a professora Sueli.

Mas, se os alunos com dificuldades de conteúdo vão para a frente com algumas aulas a mais, o que dizer dos que continuam com avaliação insuficiente ano após ano? Aí há outro leque de razões. Uma das mais frequentes é a falta de método para estudar. Ou seja, o aluno não estabelece uma rotina que lhe permita cumprir as tarefas escolares. Essa situação costuma ser identificada pela escola. “Os jovens deixam pistas de que estão passando por essa dificuldade. Muitos se queixam de não ter tido tempo de estudar toda a matéria para a prova porque era muita coisa”, observa a psicóloga Mariângela. Muitas vezes, a desorganização pode ser apenas um reflexo do modo de vida familiar. “Existem famílias, por exemplo, que não têm o hábito da leitura. Nesses casos, o aluno precisa ser ajudado para criar uma rotina”, avalia a educadora Clice. Pode haver ainda uma dificuldade de concentração. “Há casos em que falta ao aluno um lugar tranquilo para fazer as tarefas da escola”, diz a orientadora Valéria Silva, do colégio Miguel de Cervantes (SP).

 

 

 

 

 

Alan Rodrigues
Despertar com a matemática:
a arquiteta Sergina Brandão Machado, de São Paulo, substi-tuiu a professora particular de matemática da filha Marília, 14 anos, quando viu que faltava experiência de aula à universi-tária contratada. No final do trimestre passado, Marília fez recuperação de várias matérias e precisou de aulas extras dois dias antes da prova de mate-mática. “A escola é puxada demais. Sei que preciso prestar mais atenção nas aulas, mas tenho sono especialmente nas primeiras horas da manhã, durante as aulas de mate-mática”, diz a garota.

Na tentativa de oferecer mais uma opção para esses estudantes, algumas escolas experimentam uma nova modalidade de apoio. Alunos do ensino médio acompanham os menores, indo à casa deles diariamente para ajudar na organização do estudo e explicar dúvidas. São os tutores. “Esse modelo já existe nos Estados Unidos e na Europa com ótimos resultados”, diz Andréa Ramal, consultora educacional dos governos da Bahia e do Rio. O mesmo sistema funciona no Colégio Magno e no I.L. Peretz (SP). E se nenhuma das alternativas anteriores foi válida, outro recurso são as sessões com psicopedagogos, especialistas que ajudam a identificar com mais profundidade os pontos a serem trabalhados com cada aluno. Se for necessário, além de discutir a organização do tempo, auxiliam o aluno a reestruturar o seu conhecimento (e a perceber que sabe mais do que imagina) e trabalham com a família as suas responsabilidades no processo.A maioria das escolas não indica aulas particulares. Mas existem centros de orientação de estudos, a exemplo da Vésper, e as aulas do método Kumon. Trata-se de uma franchising de aulas particulares de matemática e português. O educador matemático José Antônio Lopes não desaprova o método. “Quando a criança estuda em uma escola tradicional e está acuada, ensinar macetes para quem não aprendeu a raciocinar direito sobre um problema é um alívio”, pondera.

Renato Velasco  
Lição no teatro: a empresária Maria Fernanda Duarte, de São Paulo, já não se lembra quantas vezes ficou sem férias por causa do filho Lucas, 15 anos. “Virou rotina dia 22 de dezembro ir atrás de professor para saber se o meu filho conseguiu nota nas provas de recuperação”, conta. Este ano, porém, ela está mais otimis-ta. Depois de sete anos de esforços, Lucas melhorou sua relação com os estudos. Como? Curso de teatro. “Ninguém aprende sob tensão. Descobri que o teatro me relaxa. Me realizo e o resto fica mais fácil”, diz Lucas. Antes disso, ele teve aula particu-lar, reforço na escola, ficou de recuperação, fez terapia, sessões com psicopedagogos e fonoau-diólogos, mudou de escola e brigou muito em casa.  

O baixo rendimento escolar também pode indicar conflitos emocionais. As possibilidades vão desde crises previsíveis da adolescência até crises acidentais, como luto e mudanças. “Algumas crianças, por exemplo, ficam inseguras quando mudam da 4ª para a 5ª série. O aluno passa a ter vários professores e outras demandas que requerem maior organização e autonomia. Alguns precisam de mais suporte”, diz Sônia, do Santa Cruz. Entre os adolescentes, os conflitos aparecem de maneira mais sutil ou até em gestos de indisciplina. “Há jovens que passam por fases de desinteresse, falta de atenção ou agressividade”, diz a orientadora Valéria.

Aliás, queixas por tumultuar a sala de aula e até atos mais ruidosos, como brigas com outros alunos, estão entre os motivos mais frequentes de convocação dos pais à escola. É um encontro delicado, que mexe com as expectativas dos pais e esbarra nas regras do colégio. “Às vezes avisamos os pais e mandamos a conta se o aluno quebrou um vidro, por exemplo. Mas, se percebemos que há outras questões, é fundamental conversar”, conta Valéria. Nos encontros pode surgir a recomendação de procurar um psicólogo. Em alguns casos, os testes aplicados em consultório revelam as características dos conflitos e alterações de percepção causadas por deficiências auditivas ou visuais. A família também é convidada a participar de sessões.

No final das contas, resta entender por que cada vez mais jovens precisam de apoio para dar conta do currículo. O problema, para alguns especialistas, está no excesso de estímulos. “A criança recebe muita informação e se dispersa. Por isso, o professor precisa ser ágil para transmitir o conteúdo”, analisa a professora Nivea Basile, da Vésper. Porém, na opinião da psicóloga Suelena Bastos, da Escola Americana, no Rio, os educadores estão percebendo que, até por todo o aparato de aprendizado que cerca o aluno, é preciso enxergá-lo de forma mais individual. “Cada aluno tem seu tempo, seu ritmo e suas exigências. Deve-se respeitar isso”, afirma.


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